Nada de redes sociais ou inteligência artificial. A estratégia usada na campanha eleitoral em São João de Meriti (RJ) foi outra, à moda antiga: espalhar notícia falsa contra um candidato nas ruas, no ponto de ônibus, na praça, no mercado e em bares. A tática envolvia influenciar o voto dos eleitores com atores disfarçados no mundaréu de gente.
"Ele só fala pra ganhar voto", "diz que cuida da segurança, mas é miliciano" e “não trouxe nada pra cidade como deputado”. Esses eram os bochichos armados divulgados pelos artistas de rua. Já sobre o candidato apoiado pela trupe o papo era outro: “pode até roubar, mas faz” e “é bom de serviço” e “ataca ele por ser do mesmo partido do Bolsonaro”. Tudo isso era repetido aos quatro ventos e com gírias locais para enganar as pessoas.
Toda essa trama só veio à tona após um político prejudicado pelo esquema denunciar a malandragem. A partir daí, a Polícia Federal (PF) botou agentes disfarçados para seguir os atores eleitorais, que foram pegos no pulo — quatro pessoas foram presas em setembro durante as eleições. Agora, no início do mês, 11 suspeitos viraram réus na Justiça Eleitoral. Eles são acusados de espalhar mentiras durante a campanha e de difamarem adversários políticos, mas negam essas acusações, mesmo com todas as evidências colhidas pela PF.
'Bota pra fofoca'
A tática da trupe ficou mais descarada quando a PF botou as mãos nas mensagens trocadas em grupos de WhatsApp como “Equipe Teatro Invisível 2024” e “Teatro/Coordenação”. Em uma das conversas, um integrante mandou um print manipulado ligando, sem qualquer prova, o candidato Léo Vieira (Republicanos) ao assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL). E deu ordem direta para difundir a mentira boca a boca nas ruas: "Dá uma lida nessa notícia aí e bota pra fofoca nas ruas".
Outra mensagem flagrada pela PF mostra uma das integrantes da equipe analisando o movimento nos bairros: "Essa área não tem muita movimentação. Quando é no Centro, a gente consegue um número melhor". A movimentação dos atores era acompanhada por um mapa cheio de papéis coloridos, encontrado durante a batida feita pelos agentes.
Ao final do expediente, os atores entregavam relatórios com os números de abordagens e de "eleitores convertidos". No geral, cada ator podia embolsar até R$ 2,5 mil por mês, além de mais R$ 2,2 mil para gastos com alimentação e transporte. O coordenador do time levava R$ 5 mil, e todo o pacote de seis atores mais o supervisor podia sair por R$ 33,2 mil por mês.

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